Um balanço da contribuição feminina nas políticas públicas e no trabalho social
Em junho, apresentamos as áreas de Cultura, Negócios e Ciências. Agora é a vez das duas outras categorias avaliadas pelo Prêmio CLAUDIA – que há 13 anos reconhece o talento da mulher brasileira. Na próxima edição, conheça as 15 fi nalistas de 2008
Patrícia Negrão/Colaborou Daniele Moraes
As mulheres são maioria no comando de organizações não-governamentais (ONGs), associações e instituições sociais. É uma área complicada, que exige talento e coragem para enfrentar até ameaças de morte. Elas topam o desafio e estão Brasil afora criando estruturas para propiciar educação, saúde e Justiça à população carente. Nos espaços públicos de poder, no entanto, ainda lutam para conquistar autoridade de decisão. A presença feminina no Parlamento ilustra bem a realidade brasileira: somos somente 8,6% na Câmara dos Deputados e 12,3% no Senado Federal. Uma aberração em pleno século 21.
A MULHER NOS CARGOS DE PODER Agindo em diferentes estados e com focos distintos, quatro mulheres homenageadas pelo Prêmio CLAUDIA na categoria Políticas Públicas são bons exemplos do avanço feminino em espaços dominados pelos homens. A médica goiana Irani Ribeiro de Moura (finalista em 2007) trabalha no Ministério da Saúde. Ela assumiu o setor de Urgência e Emergência, criou o programa Samu 192 e está implantando atendimento de emergência hospitalar em todo o país por meio de ambulâncias equipadas com aparelhos de última geração e de profissionais treinados. Já a educadora baiana Ivete Sacramento (vencedora em 2007), primeira mulher negra a se tornar reitora no Brasil, expandiu o ensino superior no interior da Bahia. A juíza paranaense Joeci Machado Camargo (finalista em 2005) agilizou o sistema judiciário em Curitiba e o deixou mais acessível ao criar o projeto Núcleo de Conciliação e Justiça no Bairro. No terceiro mandato como prefeita de Salgueiro, a 530 quilômetros de Recife, Cleuza Pereira do Nascimento (vencedora em 2006) conseguiu romper a oligarquia machista e tornou-se a primeira mulher a administrar uma cidade no sertão central de Pernambuco. Mas elas ainda são exceções. “Quanto mais se sobe na hierarquia, menor é a pre sença de mulheres”, diz a cientista política Marlise Matos, da Universidade Federal de Minas Gerais. Segundo o Global Gender Gap Report, ranking divulgado em novembro de 2006 pelo Fórum Econômico Mundial, nenhum país possui igualdade total entre homens e mulheres. Um dos pontos mais vulneráveis é a participação feminina na política. Realizado em 115 nações que abrigam 90% da população mundial, o ranking coloca o Brasil na 67a posição. A vergonha seria ainda maior se fos se avaliado apenas o quesito cargos no governo: cairíamos para a 86a posição.
A política no Brasil continua a ser arena masculina. Solteira, miúda –1,50 metro de altura – e de família sem posses, a prefeita de Salgueir ouviu “até música de gozação em carro de som” ao se candidatar ao cargo. Além de grande educadora e líder nata, a ex-reitora Ivete Sacramento credita aos pais parte do sucesso. “Eles me ensinaram: ‘Seja correta e nunca abaixe a cabeça’. De cabeça erguida,participou da criação do Movimento Negro Unificado da Bahia e ocupou, em 1998, o maior cargo administrativo da Universidade do Estado da Bahia; foi reeleita em 2002 e fez seu sucessor em 2005.
As mulheres estão muito bem preparadas para assumir postos de direção. “Porém, no caso de igualdade de formação, o cargo vai sempre para um homem.Somente quando as mulheres se destacam excepcionalmente é que elas são chamadas”, afirma Lúcia Avelar, cientista política e professora da Universidade de Brasília. Apesar da cota de mulheres – por lei,os partidos precisam reservar 30% das candidaturas às filiadas –, os partidos políticos continuam dificultando a vida delas. “Essa é uma queixa geral: nos partidos, elas se sentem praticamente invisíveis. Dividir o poder com as mulheres não interessa aos homens”, completa.
SOBRECARGA DE TRABALHO A cultura patriarcal ainda as socia homens aos espaços públicos e mulheres aos espaços privados. Há outros obstáculos para chegar ao topo, como a falta de dinheiro para campanha política; o receio de ter vida pessoal exposta; e, sobretudo, o acúmulo de responsabilidades, já que continuam no controle da casa e dos filhos. “O real progresso das mulheres no espaço público depende de uma reorganização do uso do tempo, em que elas sejam menos sobrecarregadas na vida privada”, acredita Rosiska Darcy de Oliveira, presidente do Centro de Liderança da Mulher, programa nacional de formação feminina. “Não se trata somente dos afazeres domésticos mas também do cuidado com as crianças, idosos, marido, todo um universo afetivo que continua dependendo quase que exclusivamente delas”, conclui a autora, entre outros, de ELOGIO DA DIFERENÇA: O FEMININO EMERGENTE ( ED. BRASILIENSE). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 91,3% das brasileiras que trabalham fora fazem serviços domésticos quando estão em casa. Entre os homens, o número cai para 42,6%.
Ainda de acordo com o IBGE, somos hoje 44,4% da população economicamente ativa no país. “E quem continua trocando fraldas e gerenciando a casa? Há uma overdose de demandas, resultado desse processo mal-acabado de ida da mulher para o público e da não-vinda dos homens para o privado. E ainda exigem que elas assumam uma carreira política?!”, questiona Marlise. Essa sobrecarga provoca, de acordo com Rosiska, discriminação. “Olham para as mulheres como se elas fossem um problema”, afirma. Marlise concorda e exemplifica: “Horário de reunião do partido político: 10 da noite. Claro, o homem está trabalhando o dia inteiro, então, marca das 10 à meia-noite. O que uma mulher que tem criança vai fazer numa reunião nesse horário? No mínimo vão aparecer pessoas para apontar o dedo e levantar suspeitas da conduta moral dela”. Marlise destaca que as mulheres que se elegem hoje têm mais de 40 anos, e a maioria delas é descasada ou viúva. “Conseguem chegar lá quando o débito com a família já foi, de certa forma, cumprido. É raríssimo o marido que apóia a carreira política de uma mulher”, afirma a cientista política. Apesar dos obstáculos, a participação das mulheres nos espaços de poder está crescendo ainda que de forma tímida. “A presença feminina é fundamental para a elaboração das leis e para a implementação de políticas públicas que promovam a igualdade entre homens e mulheres”, acredita Nilcéa Freire, ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Além da maior capacidade de compartilhar e escutar, as mulheres têm sensibilidade social muito grande.” Lúcia Avelar ressalta a vocação para olhar o futuro. Elas projetam políticas a médio e longo prazos e que contemplem maior proteção social”, enfatiza.
MOVIMENTOS SOCIAIS Muitas mulheres que hoje estão em cargos políticos iniciaram a militância nos movimentos sociais. A partir da década de 1980, os movimentosfeministas intensificaram a luta pelos direitos da mulher no país. Outros grupos também se fortaleceram e passaram a exigir seus direitos: negras, indígenas, trabalhadoras rurais, empregadas domésticas. As homenageadas pelo Prêmio CLAUDIA na categoria Trabalho Social são exemplo da luta por direitos nos mais diferentes segmentos. Creuza Maria Oliveira (vencedora do Prêmio CLAUDIA 2003) fundou, em 1990, o Sindicato dos Trabalhadores Domésticos da Bahia e, desde então, reivindica os direitos de sua categoria. Sua dura história de vida – aos 10 anos já cuidava de criança, cozinhava e limpava em troca de comida e lugar para morar – a encoraja a exigir medidas que acabem com o trabalho infantil doméstico. Joênia Batista Carvalho (homenageada em 2004), primeira advogada indígena do Brasil, defende vítimas de perseguições e discriminação racial e luta pelos direitos territoriais dos índios de Roraima. Vanete Almeida (vencedora do Prêmio CLAUDIA 2002), uma das principais lideranças das trabalhadoras rurais brasileiras, rompeu com o machismo no campo. No início da década de 1980, as agricultoras estavam isoladas em suas roças. Vanete foi buscá-las na casa delas. Hoje, são mais de 800 grupos de mulheres no Nordeste, e elas – antes caladas – dirigem sindicatos, coordenam encontros e reivindicam direitos trabalhistas, saúde e educação. Na década de 1990, as ONGs começaram a se profissionalizar. “Foi quando o terceiro setor passou a ser reconhecido no Brasil, ao lado do Estado e do se tor privado”, conta Luis Carlos Merege, coordenador do Centro de Estudos do Terceiro Setor (Cets), da Fundação Getulio Vargas (FGV-Eaesp). “Comparo esse momento histórico do terceiro setor com o processo de industrialização no Brasil. Nas décadas de 1930 e 1940, a maioria das empresas era familiar, com poucos empregados. O terceiro setor também começou assim e está crescendo rapidamente. Hoje, muitas organizações já passaram de pequenas para médias.” Isso exigiu profissionais cada vez mais preparados. E as mulheres dominam essa área. A economista Graziella Maria Comini, vicecoordenadora do Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor (Ceats), da Fundação Instituto de Administração (FIA), ressalta a participação feminina. “Nos nossos cursos de profissionalização, gestão de terceiro setor ou MBAs de empreendedorismo social, 80% são mulheres.” Para Tânia Fisher, do Centro Interdisciplinar de Desenvolvimento e Gestão Social (Ciags), da Universidade Federal da Bahia, essa é “uma área fascinante, em construção”. Um setor no qual a persistência e a incrível capacidade de trabalho feminino estão fazendo a diferença. E levará cada vez mais mulheres para a esfera do poder.