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Um balanço da contribuição feminina na cultura,
nos negócios e na ciência


As mulheres são maioria entre bolsistas da área científica e empreendedores no Brasil
Patrícia Negrão/Colaboraram Evanildo da Silveira e Andressa Rovani

O Prêmio CLAUDIA tem a gratificante tarefa de homenagear mulheres que brilham nas mais diversas áreas do conhecimento. A partir de 2003, a premiação passou a ser dividida nas categorias ciências, cultura, negócios, trabalhos sociais e políticas públicas. De lá para cá, encontramos grandes talentos: mulheres dirigindo premiados filmes; executivas assumindo postos de comando; cientistas reconhecidas internacionalmente por suas pesquisas de ponta; prefeitas quebrando oligarquias machistas; lideranças arriscando a vida na luta por jus tiça. Em todos os setores, as mulheres fazem a diferença.

ALÉM DOS LABORATÓRIOS

Elas enfrentam corredeiras de rios e atoleiros em estradas; defendem políticas públicas em prol do avanço científico; têm a palavra em encontros internacionais. As cientistas brasileiras não se limitam a fazer pesquisa em laboratórios. A geógrafa carioca Bertha Koiffmann Becker, vencedora do Prêmio CLAUDIA 2005 na categoria Ciências, é um bom exemplo do dinamismo das mulheres nessa área. Autora de 14 livros e referência mundial sobre a Amazônia, ela perdeu a conta das noites dormidas em acampamentos precários dentro da floresta. "Ouço todos os grupos sociais - índios, peões, empresários, religiosos, governantes - e consigo, assim, ter uma visão macro e articulada das demandas, mudanças e problemas da região", conta Bertha. A geneticista Mayana Zatz, também vencedora do Prêmio CLAUDIA (2001), tornou-se uma das principais defensoras da liberação da pesquisa com células-tronco embrionárias no país. Pró-reitora de pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, Mayana arruma tempo para fazer campanhas nacionais, coordenar passeatas e viajar a Brasília para debater o assunto com legisladores. Cada vez mais poderosas, as mulheres, no entanto, ainda são minoria nas carreiras científicas. Mas avançam a olhos vistos. A tendência num futuro próximo é o número de pesquisadoras e pesquisadores se igualar. É o que mostram as estatísticas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). De acordo com os últimos dados, havia 41 172 homens e 36 080 mulheres. E essas figuras não contam toda a história. Em 2005, o número de bolsistas do sexo feminino do CNPq, no país e no exterior, atingiu 52% contra 48% de homens. "A inserção da mulher na Ciência é fato, e a tendência é crescer cada vez mais", afirma Suely Vilela, reitora da Universidade de São Paulo. O que fortalece também é a diversidade, como tem demonstrado o Prêmio CLAUDIA. Nos últimos cinco anos, foram homenageadas 15 mulheres nas mais distintas áreas da ciência. Entre elas, a bióloga Mercedes Bustamante (vencedora do Prêmio CLAUDIA 2007), nascida no Chile mas filha de brasileiros, que pesquisa de que forma a degradação dos biomas tropicais, como o cerrado, contribui para o aquecimento global; a astrofísica gaúcha Thaisa Storchi-Bergmann (homenageada no Prêmio CLAUDIA 2006), referência internacional por descobrir um buraco negro no centro de uma galáxia; a médica paulista Íris Ferrari (vencedora do Prêmio CLAUDIA 2006), fundadora de um dos primeiros serviços de aconselhamento genético do país, que funciona no Hospital Universitário de Brasília. George Alexandre dos Reis, pesquisador do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acredita que esse crescimento da participação da mulher na ciência se deve principalmente à mudança do seu papel na sociedade brasileira. "O país se tornou mais aberto à contribuição feminina em profissões dominadas, no passado, por homens. Mas é fundamental ter vocação", diz.

NO PALCO E NOS BASTIDORES

Na área cultural, as mulheres também ganham espaço em cargos antes destina dos somente a homens. A cineasta paulista Laís Bodansky, vencedora do Prêmio CLAUDIA 2007 na categoria cultura, conquistou seu lugar entre os muitos diretores homens com o premiadíssimo BICHO DE SETE CABEÇAS e o recém-lançado filme CHEGA DE SAUDADE. Uma das pessoas que mais lançam livros no país atualmente é uma mulher. A carioca Luciana Villas-Boas (homenageada no Prêmio CLAUDIA 2007), diretora editorial da Record, líder na América Latina no segmento de obras não-didáticas, renovou o catálogo do grupo e dobrou o número de títulos publicados. Na Bahia, a dramaturga Aninha Franco (homenageada no Prêmio CLAUDIA 2006) idealizou e dirige o Theatro XVIII, casa de espetáculos que oferece pro gramação de qualidade a preço acessível. Em outubro de 2007, a diretora de cinema e ópera e atriz carioca Carla Camurati (vencedora do Prêmio CLAUDIA 1996) as su mil a presidência do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Claudia Toni, assessora de música da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e ex-diretora executiva da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), destaca que a atuação da mulher no setor cultural é dividida em duas áreas: aquelas que estão em frente às luzes- cineastas, atrizes, cantoras, escultoras - e as profissionais que trabalham nos bastidores - produtoras, diretoras de museus, curadoras, funcionárias de secretarias e instituições culturais etc. "Nos bastidores, a maioria dos profissionais já é do sexo feminino", conta Claudia. "Os cargos de chefia, ou seja, os postos top, porém, ainda são dos homens", protesta ela. Como exemplo, cita o Ministério da Cultura. "As seis secretarias e os seis institutos vinculados ao ministério são chefiados por homens. E isso em uma área do conhecimento tida como a mais liberal e menos preconceituosa." O diretor regional do Sesc-SP, Danilo Santos de Miranda, concorda que são poucas as mulheres em posição de chefia. "O país progride para a equalização, senão para a inversão desse cenário nos próximos anos, pois as mulheres têm uma capacidade praticamente inata de administrar, planejar e organizar coisas, situações, espaços", acredita Danilo, um dos principais fomentadores do cenário cultural no país. A história mostra que as conquistas, mesmo a passos mais lentos, caminham. "A escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941) apontava para a falta de voz das mulheres em todos os âmbitos da sociedade. Já estava a mulher européia lutando por seus direitos, reclamando sua importância para a construção da história da humanidade", comenta Danilo. "É verdade que, numa sociedade em que imperavam as vontades masculinas, a mulher era relegada a um desprezo indesculpável da história e, por isso, provavelmente muitos trabalhos valiosos de mulheres no campo das artes se perderam ao longo do tempo. Uma perda irreparável."

EMPRESÁRIAS E EXECUTIVAS EM AÇÃO

Extremamente competentes, elas estão estourando em todas as posições.

É o que demonstram as homenageadas do Prêmio CLAUDIA. Presidente no Brasil da maior agência de classificação de risco do mundo, a Standard & Poor's, a paulistana Regina Nunes (homenageada no Prêmio CLAUDIA 2007) é hoje uma das executivas mais influentes no turbulento e masculino mercado financeiro. A ex-dona-decasa paranaense Kozue Imai (homenageada no Prêmio CLAUDIA 2006) assumiu, com o falecimento repentino do marido, em 2001, a presidência de três negócios distintos: empresa metalúrgica, construção civil e pecuária. Proprietária da rede Blue Tree, a empresária nascida no Japão e naturalizada brasileira Chieko Aoki (vencedora do Prêmio CLAUDIA 2004) é figura tarimbada quando o tema é hotelaria. No varejo, a empresária paulista Luiza Helena Trajano (vencedora do Prêmio CLAUDIA 2003), superintendente da rede de eletroeletrônicos Magazine Luiza, tornou-se sinônimo de gestão de excelência e mudou a lógica brasileira de atendimento ao cliente. Entre 1985 e 1995, 12 milhões de novas trabalhadoras in gressaram no mercado. Hoje, somos 44,4% da força de trabalho, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As notícias são cada vez melhores para aquelas que se lançam como empresárias. Em 2007, pela primeira vez, as mulheres ultrapassa RAM os homens e representam, hoje, 52% dos empreendedores adultos no país, in vertendo uma tendência histórica. No mundo corporativo, elas estão chegando ao topo, mas ainda existem grandes obstáculos a vencer. Na escala organizacional, há um afunilamento hierárquico: quanto maior o posto, menos mulheres. "As executivas ainda ocupam posições de apoio e são poucas as que galgam posições-chave", afirma Maria Tereza Fleury, professora da área de recursos humanos da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo. Os salários também deixam a desejar. Dados divulgados em março pelo IBGE revelam que as mulheres com nível superior ganham, em média, o equivalente a 60% do total recebido pelos homens de igual escolaridade.

Ganhando menos ou não, as mulheres estão progressivamente mais presentes em cargos executivos e de gerência", anima-se Mariá Giuliese, diretora-executiva da consultoria Lens & Minarelli. E esse é um caminho sem volta. Basta olhar os programas de seleção de trainees ou estágios para grandes empresas: elas estão lá, muitas vezes em número superior ao de candidatos homens. E passaram a ser mais que bem-vindas - agora são desejadas. "Isso porque as mulheres são capazes de realizar multitarefas, aceitam bem a diversidade e a ambigüidade e dominam melhor as ferramentas de comunicação", afirma Maria Fleury. Aos poucos, as corporações se dão conta de que essas habilidades são fundamentais no ambiente de trabalho. Tanto no universo dos negócios como no das ciências e da cultura, a mulher prova a cada dia do que é capaz.
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